terça-feira, 29 de julho de 2008

Nova Cena Musical da Paraíba








Para quem não conhece, e até para quem já sabe, este panorama da música paraibana aquí presente revela o que se faz na atualidade na cena musical da cidade de João Pessoa, com seus fluxos e aberturas: seus artistas de música e poesia, seus intépretes, seus autores, seus músicos,seus mestres e trabalhadores, marcando presença nas edições "Coletivas" de CDs que são, em geral, produzidos de forma artesanal, alternativa e independente, com o apoio de amigos identificados com essa mobilização e luta cultural dos artistas (Heriberto Coelho, Gilvan de Brito, Dércio Alcantara, entre outros). Neste primeiro momento, apresentamos o CD CANTATA POPULAR No. 01, produzido em 2000, com 18 artistas expressivos da nova e da velha geração, entre canções e música instrumental:
01. Deu o Caray (Alex Madureira)
02. Branco (Marcos Fonseca), cantada por Soraia Bandeira.
03. Contos da oca ôca (Jonathas falcão), cantada por Glaucia Lima.
04. Um Samba (Wander Farias).
05. Ancestrais (Milton Dornellas).
06. Aos que se foram (Pedro Osmar).
07. Baticum (Escurinho).
08. Carta pra Dionísia (Paulinho Ditarso), com Paulinho Ditarso e Diana Miranda.
09. Ao Rés de Mim (Paulo Ró e Águia Mendes).
10. Quem Inventou o Samba (Adeildo Vieira).
11. Amo Você (João Linhares).
12. Variou (Mestre Fuba).
13. Boi Germinou (Marcos Fonseca).
14. Perdizes (Tatá Almeida e Chiquinho Mino).
15. Mais Além (Chico Viola).
16. Meu Brasil (Ratto e Vant), cantada pela Tribo Ethnos.
17. Abraço ao Mano (Xisto medeiros).
18. Metalurgiarte (Gualter e Geber Ramalho), tocada pela Metalúrgica Felipéia.

A arte que ilustra é do artista plástico paraibano (radicado na alemanha) Flauberto.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Poemas de Pedro Osmar

POEMAS DE PEDRO OSMAR (2007, para um Livro Redondo).



GEOMÉTRICO.

Geo
Métrico
Meo
Gétrico
Téo
Étrico
Céu
Lento porão.

Geo
Gélido
Déo
Dócil
Léo
Fóssil
Céu
Largo portão.

Geo
Morando
Reo
Poente
Rau
Semente
Céu
Neste salão.

Geo
Quase-se
Béu
Base
Belo-me
Ave
Céu
Desse clarão.

Geo
Quadra
Tura
Relva
Véu
Vulva
Céu
Na minha mão.

Geo
Leve
Peso
Lado
Claro
Cinza
Céu
Naquele chão.

Geo
Mântrico
Lítico
Quântico
Cêntrico
Sapiens
Céu
Pelo sertão.

Geo
Cósmico
Sólido
Épico
Bloco
Hélice
Céu
No calçadão.

Geo
Cubo
Plástico
Móbile
Corpo
Sereno
Céu
Desse balão.

Geo
Gêlo
Psico
Bólide
Químico
Olho
Céu
No violão.

Geo
Carne
Breu
Berrante
Tocha
Errante
Céu
Lá no baião.

Geo
Cavalar
Salta
Pontes
Ferro
Horizonte
Céu
Nesse grotão.

Geo
Tecido
Teia
Telhado
Meio
Bordado
Céu
Pelo trovão.

Geo
Faminto
Espirrante
Medula
Sorriso
Gelado
Céu
No coração.

Geo
Flores
Cava
Jardins
Clara
E curva
Céu
Na contramão.

Geo
Pensado
Arqui
Plan-air
Traça
Medida
Céu
Todo borrão.

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Gaiola do Olho (quase boca).


O berro, pó e mar (do olho)
É bloco, barro, pedra e gente (na gaiola).

Água cêro
Água olho
Água curva
Lágua
Ledra
Lal
Lodo
Lente.

O leva-e-traz
O água, onda
O sente fogo
Larro
Ló e lar.

E ferro, nuvem, brisa
O boca, sede, lábio
O lágrima, laço, olho
Loca, lolho
Lede, luvem, lerro.

E por isso o eco
O “S”ssssssssssssssss
O erro, o desterro
O esterro, o enterro
O esterco, a baba fina
Sadia, fria
Nojenta
Do cantinho esmo, abaixo
Na boca que diz.

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Exercício de ninar.


Te abrir em bandas
Quibandas
Quizumbas
E caras.

A cara preta
Do meio das pernas
Que me olha
E sorri,
Assim,
Mulher barbada.

A cara-cara
A cara me cuspir
A vara de partir
A lasca de ganir
No que vai-vem
E não vem-e não vai
Em nós dois.

E me abrir em quantos
Na tua boca?


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Mulher-vaca.


Nua
Capturando a manhã
Com sua boca
Cabeluda.

Tal, qual.

Nua
Soterrando a manhã
Em sua toca
Acesa.

No animal.

Nua
Abraçando a manhã
Com sua vida
Florida.

Já no açougue.

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World Trade Center.


Torres/touros
Como palavras
Ruindo língua em véus
Pedras de palavras
Se comendo
Aos céus.

E sinos batendo-se
Ao pó
De longe, para longe
Ou perto e dentro(s)
Por quem chorou
Ou gargalhou-se
Metástases.

Janelas que a história
Vem tocando
Horizontes em pássaros de ferro
Em concreto armado
Do inútil
Ao chão.

Sabe-se que o mundo sorriu
Pela TV, àquela hora
O fogo comendo a água
Se bebendo
E babando, alí
Para um banquete
De quantos bilhões de talheres.

E nem a boca do chão
Pôde impedir o vôo
Daquelas águias sem rock
Aves de rotina
Invadindo o espaço aéreo
Daquela manhã
De rapina
Ainda desacordada.

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Cabeça.


O sonho
Na geladeira
O corpo em fogo
Do sonho
No congelador
Cubos de sonho
Frutas, cristais
Garrafas de vida
Em prateleiras.

Os bichos soltos
Pesados
Temperados, voando;
Batatas na boca do sonho.

Sonho/bicho
Calmo, arte
Banho/sonho
De vinagre
Em produtos industriais.

O volante do veículo
Do sonho (cabeça)
Gritando estradas
E mordendo meu coração
Passarinhador.

O angelical
O selvagem
O tempestivo silencio
Jorrando suas utopias de vida
Na realidade ensanguentada.

E o sonho
Pisoteando inocências de carne
Desaparece
Dentro da noite.

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Janelas Abertas.



Guardo os elogios
No vinagre
Dentro do poema
No sotão
No porão
Costurados na boca
Do sapo.

Guardo os elogios
A sete chaves
Na mala do carro
Em viagem
Aqui e ali
Soltando os cavalos
Na beira da estrada
Lamacenta.

Guardo os elogios
No bojo
No fundo falso do sorriso
Atrás da porta
E abaixo do gostosíssimo
Angu de caroço
Da janta social.

O elogio sob véus
Abaixo dos lençóis
Abrasando a ponta da língua
Mecânica dos acasos.

O elogio e sua vulva
Molhada
A espera de que alguém
O morda
E o traga à mesa
Para sua digníssima missão
De mentir e cavalgar
Mais uma vez.

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A Paraíba
Nasceu na bahia
Jackson do pandeiro
Nasceu na bahia
A Europa nasceu na bahia
Bahia
Da traição.

A bahia
Nasceu na bahia
A poesia
Nasceu na bahia
A mulher de Michael Jackson
Nasceu na bahia
Bahia
Da traição.

George Bush
Nasceu na bahia
O papa
Nasceu na bahia
O agente 007
Nasceu na bahia
Bahia
Da traição.

O amigo
Nasceu na bahia
O inimigo
Nasceu na bahia
E quem não tem nada a ver com isso
Também nasceu na bahia
Bahia
Da traição.

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Mosteiro.


Diversos gritos amontoados
Em gritos
O que perambula
Pelas multidões
O olhar pessoal
Desse novo tempo.

O som
A imagem
A palavra

O som do carvão
Riscando palavras
De gelo
O som das palavras
Reconhecendo-se pedra
Em pelo.

E quando na calada do grito
Irrompe
O absurdo e triturante
Silencio dos lírios-gritos
Crava-se um grito em quilos
Amontoados nas canções.

Gritos congelados
Em pessoas sem boca.

Lavra-se do calamitoso
O que ainda em desenho
O pulsante
Do berrante mais que mais
Do amoroso
Em que águas navegamos
E podemos
E vivemos
E saciamos
Na mordida dos começos.

Sei das bocas minhas
Que ousam
Por fora dos dentro(s).


Bush.


O cu de sua pátria
Não é aqui.

Vá cagar
Noutro lugar.

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Prato Feito.


Qual é a poesia de hoje?
Ela está pendurada nas árvores
Feito fruta madura
Para que seja o alimento
E remédio
E cura
E acontecimento.

A poesia é adulta
Mas tem uma bucêta de menina
E a bunda
Da negôna biruta.

E eu bem sei
Comê-la é uma delícia
Mastiga-la ainda no pé
Uma aventura
E o melhor de tudo
Seda fina e feijoada
Em palavras
E pétalas.

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Amarelado.


O vermelho (no escuro)
É cor qualquer
Mas é vermelho
Mesmo assim
Cor que se quer.

Vê-lo assim (no escuro)
Tremulando ao vento
É como criança brincando
Só que ainda rebento.

E pode ser verde (ou amarelo)
Um vermelho-verde
No sangue verde
Das contradições
Jorrando livre
Impune e triste
Na cara das multidões.

Mas é vermelho mesmo
Espirrando na parede branca
Melando as pernas da santa
E cobrindo de meias verdades
A vida de pessoas
Ainda inocentes.

E sabe porque
Tanto sangue assim?
Porque o que somos
É como martelo que bate
Na bigorna do sentimento.

E bate até marcar
Bate até sangrar
Bate até sentir
Bate até chorar.

E é um choro lento
É bento
É surdo
É pouco
É murcho
E as lágrimas, sangue pisado
Como o que Jesus Cristo
Vem comendo nas igrejas
E templos
No horário comercial.

Nas meninas
O vermelho é nuvem
Céu de um coração apaixonado
Que pulsa e vomita
Seus prazeres a mil
E o corpo todo, tenro, teso
Berrando golfadas de escuros
Em sua brancura cavalar.

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Da loucura
O trumpete no escuro
Espera
De seus quadrantes
Fera
Em silencio de acácias
Esfera
Rombuda, selante
Ladeira
De ruminantes
Cabeça adentro
Em amarras
Sorrindo.

Espera
Do que sai derramando
O líquido quente
Na geladeira da cabeça.

E o que vai e sai, de fininho
Entre o circulo
E o outro
Em quadrados
É o aço inoxidável
Da vida (enferrujante, atada)
Que se derrete
E se repete
E se reparte
Em raros
E ralos circulos
Do que se afasta
E se aproxima
Ao pó, nesse vácuo
Borbulhante.

Da loucura
O trumpete no escuro
O chiclete no cabelo do careca
Revisitações em carne
De palavras
Pelo telefone.
“Ivone
pelo telefone” (como diria Carlos Aranha).

Da loucura
A negra flor das aparências
O guindaste resoluto
E sua música esfarelada
A música de tapiocas na cara
Como a melhor maneira
De pular o batente
Entre os dentes
E o dentro(s).

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Fascínio
É a tarde sendo mastigada
O ruído maneiro
Dessas dentadas
De palavras ao vento.

Fascínio
É a noite
Com seu liquidificador
Gemendo
Águas passadas
E seus moinhos calados
Em mim.

Fascínio
É o dia com seu buzinaço
Latidos contra a parede
E o sangue das quimeras
Pintando essa vida sorrateira
Tão sorridente.

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Alcanço as palavras
Em pleno vôo
Poeira de palavras
Ao vento (ao dentro-s)
Rodando no ventilador.

Carne de palavras
Moendo sua ventania
Remoendo aventuras aladas
De letrinhas
Saindo dos lírios
Aos livros
Voadores.

Palavras-óculos
De chumbo
Palavras que vêem
No além de si
E o que pesco
Me são
Palavras-peixes
Palavras-pares
No aquário sideral
Dos mares.

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O que do alto de seus porões
Resiste
Sua máscara de gente
E sua identidade civilizada
Resiste.

O desespero é um pelo
Coçando a garganta
Pedindo a incisão
Do bisturí
Tenha que nome tiver
Trator
Terra
Que se ara
Com as mãos
Ou carnaval.

O que será que sempre
Mugido
Urro no escuro
Da caverna
Nas pessoas
Aquela tempestade
Nos olhos
Floresta de espinhos
Pingos, respingos
Na carne nua
Perfeitamente visível
Aos dentes
(que dentro-s).

quarta-feira, 21 de março de 2007

Leitura Poética do livro “Tito, em nome da memória”.

Quando a morte
(simpática pedrada sorridente)
Nos tira da realidade,
O que dizer
Às nossas gostosas babylooks?

Quando algumas,
Mesmo sacras
E completamente nuas pelas ruas
Já não voam mais
Já não soam
Na música dessas cachoeiras congeladas,
O que fazer para servir o lamacento Rimbaud
Da meia noite?

Quando ela
(Cinderela de azul)
Nos abraça para sempre
Com sua baba
De mocinha de 15 anos,
O que provocar,
Se o que som
É o que de silencio rasga
Dentro da madrugada?

Quando apavorante
(roçadeira imaginária)
Nos lembra finalmente quem somos nós,
E aí não há porque negar
O tropel da cavalaria
Nos olhos da fada bucetuda.

Em que momento então
Vai e vai e vai e cai
Fechando suas portas
E janelas
E tocando suas trombetas
No encerramento deste belo espetáculo
De berros e tantras?

Lá tem uma placa:
“morrer
É abrir outras asas e pernas
Por dentro (s)”.

Portas ao vento
Voante setembrina
Ao tempo de um jardim
Quase invisivel
Em desabraços.

E de suas flores (como palavras)
Como enxadas
Como dentadas
Regalam-nos para o sensível chão
Dessas calamidades.

Tão festivas
E cabeludas a céu aberto
Socam-me novas perguntas:
E porque não continuar caminhando
Pelas ruas secretas
Daquele poema de amor
Encarcerado?

E o que plantamos
Ao tempo em que o corpo
Baixa ao chão,
Se dessa planície mental
Que seca ao sol
Já não late mais
Aquele coração
Que vomita sangue
Pelas ruas.

De um lado
Encarcerado na caixa de cimento das horas
O viço
O crivo
A gralha-serpente desse bicho
Rodando suas cavalices.

De outro
Entrega aos urubus
Cada uma das cores
Que as almas vem beijar.

E aí os lírios sem calcinha
Vaginas brancas
Abertas ao pranto cego
Das cavalarias
Sacudindo a tripulação.

Aí é no cara a cara
Um beijo de línguas
Que encerra
O sisudo espetáculo
Do poeta pendurado nas palavras.

No meio da mata.


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Um poema
Não poema
Feito de sons
E imagens
Não palavras.

Um som
Tais palavras
O poema
Feito de água
E pedras
Não palavras.

Um poema
Compromisso
Às palavras
Que céu de sonoridades
Não palavras.

E dele
E dessas coisas
Cada coisa
Na casa
A poesia
De não palavras.

Pois como identificar
Algum latido de verso
Algum sentido de fundo de poço
De não palavras?

Como perceber
Na terra
Na pele
Nessas carrancas
A céu aberto
O bicho do poema?

Como saber
Se é mesmo o rastro
Ou o emplastro de alguma dor berrante
De não palavras?

Sei que das vaginas
Das meninas
Das américas cabeludas
E prontas
Soam sinais
De não palavras
Soam abraços e beijos
De não palavras
Dizendo suas loucuras.

Mas principalmente
Falas
E facas
De nuvens
Na sopa de letrinhas
Sonoras do corpo
Saltando no liquidificador.

Uma coisa é certa:
A poesia continua negra
Tatuada no meu poema
Está de pernas abertas
Para mim
E eu sim
Brilho sereno pregando-a
Nestes sentidos
De não palavras.


(Pedro Osmar)

POR UMA MÚSICA INTELIGENTE E COMESTÍVEL.

A partir da música local, primitiva e ancestral;
A partir da música regional, em seus limites geo-sonoros;
A partir da música comercial, música de mercado, ditadora, redutora e reprodutora massiva de moda, diluidora de tantos equívocos;
A partir da música brega, da música romântica, da música de corno, da música de puta, da música-trilha sonora para o turismo sexual;
A partir do nacional-popular, do folclórico, do erudito, do formal e do informal;
A partir dos pagodes, dos breganejos, dos forrós de plástico, dos axés e lambadas;
E também a partir da velha guarda, da jovem guarda, da bossa nova, da bossa velha e dos tropicalismos;

Aparti-los. Reparti-los. Engoli-los. Cagá-los. Mijá-los, trepá-los à vontade por todos os espaços de educação e cultura, para um outro som.

Chegar ao crítico som das misturas, e vomitá-los.
Chegar ao criativo som das pontes sonoras, e vomitá-los.
Chegar às fontes sonoras geradoras de toda uma criticidade politizada, e vomitá-las.

Partir dessas máscaras e carrancas sonoras para chegar à “invenção” em seus projetos e processos devorantes e devoradores de imbecilidades; ao som inventivo rebelde e revoltado como resultado desse grito e desse silencio que vê o fim do túnel e não se cala; porque apontar algum caminho, novos e interessantes caminhos, é a missão.

Que uma música nova e bela e feia e horrível e interessante e inteligente nos leve à uma humana música, brisa, vento e tempestade criativa e recriadora de tudo, berrante, sussurrante, violenta e pacífica; música em sua busca de um mundo novo, de um homem novo, de uma música que já não quer mais ser enjaulada, e rotulada, e iludida e bestializada em seu sentimento sonoro; a fabricação indústrial que põe na linha de montagem o miserável som das dominações e cavalices tem que acabar. Porque somos obrigados e domesticados e oprimidos a comprar e engolir e parir e reparir tanta burrice?

Não há dúvida sobre a origem das Pontes Sonoras que construímos em praça púiblica:
Nós queremos e insistimos e investimos em ações guerrilheiras de cultura que nos eduquem para uma liberdade sonora mais realizante, alfabetizante, para que a democracia popular da música nos bairros, criando e recriando inteligência nas escolas públicas e entidades (comunitárias, estudantis e sindicais) possa ser uma realidade.

Isso intuímos, mas não só: construímos, e construir significa acender luzes para um futuro melhor, algo que nos colocará num trilho mais seguro que rume para o novo, para que o encarar de frente nas necessárias ousadias de músicos e de não-músicos nas cumplicidades do dia-a-dia continue sendo uma verdade.

Sons liquidificados e modificados e puros e impuros e carecas e cabeludos para uma música mais cabeluda e tesuda e misturada e molhada, beijando nossos ouvidos apaixonados que querem mais música que o eduque. E este é o compromisso dos amantes de música boa (músicos e não-músicos): realizar “uma música onde tudo é permitido: combinações de instrumentos, invenções melódicas e integrações harmônicas, criando e reforçando elos e formas rebeldes e democráticas de vivenciar a humana música para todos os que querem aprender uma música mais inteligente.

Isso até à exaustão científica, até que o nível de invenção na música que estudamos e praticamos soe bem melhor, para todos e em qualquer parte do Brasil e do mundo. Com inteligência, a nossa música provocativa será cada vez mais de todos e para todos e em qualquer lugar, educando e ensinando e aprendendo mais o que é a vida em comum numa sociedade tão afunilada e canalha (arrombar os funis, esta é a saída musical). Socializar, democratizar, popularizar e descentralizar essa música inteligente para que ela cumpra o seu papel e a sua missão nos bairros, é a nossa saída musical.

Conseguir dar novos passos sonoros à frente nesse entendimento.
Conseguir construir novas oportunidades de música nova e boa para agilizar as fusões e transfusões desse futuro provocado: a música como um espaço-tempo de muitos aprendizados e tentações, até chegar ao humano, ao democrático, ao socializado, por seus diálogos criativos, por seu incomodismo e inconformismo generalizado, e por tudo de justo que possa a música de invenção lutar em sua trajetória educadora. Esta é a ação democrática de um projeto político mais ágil e eficiente para a música que precisamos viver.

E sempre: SÓ A POESIA NOS SALVARÀ!

O que nos dizem Walter Smetak e Hans Joachim Koellreutter, educadores, projetistas de vida e música humanizadas, se não a tentativa frutífera de buscar saídas?

O que nos dizem Arnold Schoenberg e John Cage, educadores, projetistas de uma vida e de uma música que continua pulsando produtivamente dentro e fora e aquém e além do caos para uma nova música mundial?

Temos Hermeto Paschoal, Egberto Gismont, Naná Vasconcelos, entre tantos e muitos
artistas sérios preocupados com o livre transito nacional e mundial dessa música de invenção que existe para provocar inclusive os bloqueios impostos pela mídia caduca e reacionária. Porque os rádios não tocam a boa música de invenção? Mas também porque não preparamos as populações para ouvir e curtir e entender e repartir e saber essa música de invenção como suporte para uma vida melhor e mais feliz? A música popular brasileira ainda tem muito o que dizer para seu povo. Mas dizer em que condições? O bloqueio das rádios ao produto musical inteligente do Brasil é anti-patriótico e anti-constitucional. È preciso que uma atitude mais responsável e politizada seja tomada.

É só ter cuidado com a ignorância política e suas impunidades (um músico ignorante, um mercado ignorante, uma platéia ignorante, é o fim). E no entanto, estamos apenas no começo.
É só ter cuidado com o reacionarismo estético e se capacitar para estar aberto ao novo, que é estar aberto à vida, que está sempre em movimento.

VIVA A INTELIGENCIA E A INVENÇÃO.

Pedro Osmar. 09.03.2007. Santo André-SP.